IMAGINÁRIO DAS ÁGUAS
A primeira vista, o termo “imaginário” nos remete diretamente á imaginação. Não estaria errado quem assim o pensasse, tendo em vista que muitos dicionários descrevem o termo nessa perspectiva. Entretanto, o presente trabalho nos fez ver que o imaginário é a representação simbólica do construto conceitual dos bens de cultura. Por possuir um caráter subjetivo, o imaginário precisa de representação simbólica, logo, os símbolos são os elementos capazes de atar as pontas daquilo que foge á compreensão objetiva, exprimindo subjetividades e representações sobre a condição humana e sobre a história sociocultural dos grupos sociais. Como no dizer de Bachelard “ a imaginação não é, como sugere a etimologia, a faculdade de formar imagens da realidade; é faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade. É uma faculdade de sobrehumanidade.”
As “figuras do imaginário”, abaixo elencadas, foram recolhidas do corpus de cinqüenta histórias coletadas em espaços ribeirinhos. Os sujeitos entrevistados, com faixa etária a partir de 60 anos, relataram experiências ou rememoraram fatos vividos em rios como Almada, Contas, Cachoeira, Colônia e a Lagoa Encantada, situados na Microrregião Cacaueira da Bahia.
Ultrapassa as intenções deste inventário de “figuras” a interpretação de suas representações culturais e dos símbolos que encerram, em uma perspectiva teórica, trabalho que só começamos a empreender. O mais importante a considerar é que embora algumas dessas figuras, como veremos, constituem-se “versões” de personagens conhecidas pela tradição oral, muitas delas emergem como novidades que podem agradar aos estudiosos da tradição oral, sobretudo os que se dedicam á literatura oral comparada.
Como se pode constatar, a caracterização dada aos “personagens das águas”, a seguir, foi feita a partir da análise das informações fornecidas pelos entrevistados. Cada caracterização está apoiada por fragmentos de fala dos sujeitos da pesquisa.
PERSONAGENS DAS ÁGUAS
Nego d’água
É a figura mais multifacetada do imaginário das águas. Uns contam que ele é um ser que habita nos rios, manifestando-se com suas gargalhadas, preto, careca e com mãos e pés de pato. O Nego D'água derruba a canoa dos pescadores se eles se recusarem lhe dar um peixe. O Nego d’água é cabeludo e barbudo e fica sentado de cócoras em uma pedra, quando é visto, entra na água e só aparece ao meio-dia atrapalhando a vida do pescador. Outros dizem que não passa de um negro lindo que encanta as mulheres levando-as a morte por afogamento em lagoas e rios. Relatam que ele era um pescador que usava calça, camisa, botas e uma tanca (colete de couro de boi) e morreu afogado quando caiu da canoa, virando o Nego d’água. Ainda o conhecem como um anãozinho, peludo e malvado que protege rios e lagoas de banhistas desavisados; e uma criatura pequena, com um metro mais ou menos de comprimento, cabeludo e que só aparece do pescoço para cima e somente à noite, principalmente noite de lua cheia. Também foi descrito como um anão avermelhado, peludo e com um olho só. Por fim, ainda existe a história de que haveria vários Negos d’água no mesmo rio que impedem a pescaria.
“Ó::: UM NEGO SENTADO... NU, baixinho, barbudo, cabeludo... Assim sentado de (cócoras) na pedra. Quando eu olhei pra ele eu disse “MISERICÓRDIA” e ele TCHU:::M entrou den/ da água de novo... sumiu den/ d’água. Aí ele tornou a aparecer na outra pedra. Eu falei assim “Isso num é um homem não, isso é o diabo ((risos)) Aí eu corri vim pra casa... corri... deixei até o peixe sem temperar em cima da pedra...
“...Foi porque ele morreu ai, na canoa...ele tava usando calçado de bota e tudo...ai acharam ele sentado embaixo de uma sapucaia... inté vestia aquela blusa de boi... a tanca...”
“tem o nego d’água [...] esse mesmo eu nunca vi não [...] mas o povo diz que tem [...] diz que é um pequenininho[...] cabeludo que só aparece do pescoço pra cima [...] só aparece de noite... noite de lua aí que eles aparece...”
“... me destampei com ele... o NEGUIM... o nego d’água... um anãozinho avermelhado com um olho só...”
“Aí com poucas horas... Apareceram tantos negos d’água que ele já ia chegando do outro lado... já ia perto dele chegar... Aí ele pulou em terra nunca mais pôde pescar nesse rio por que não deixaram... Não deixavam não... não pôde ir mais no rio porque os neguinhos/os negos d’águas não deixavam não...”
Sereia
A sereia, também conhecida como “moça d’água”, é caracterizada por ser uma moça linda, de cabelos loiros e longos e bonitos, que chama as pessoas na beira do rio. É parte mulher e parte peixe, mas ninguém consegue ver sua pele. Em outra definição é tida como uma moça de cabelos escuros, em vez de loiros, tem uma bela voz e gosta de encantar e levar os homens para o fundo do rio. Numa terceira narração, foi encontrada uma “Sereia da Lagoa”, que seria aquela que provoca o fenômeno do “Biatatá”.
“Era uma moça, uma moça linda, cabelos loiros bonitos (...) Eu era menina inda, ela me chamando aí, mãe tava lavando roupa e eu ia né? nadano. Aí quando eu gritei mãe, mãe dizia “tu évai pra onde menina”, digo, “ a moça ta me chamano. Eu eia aí ela me gritou aí eu voltei pra beira d’água. Dessa vez eu tinha base de uns dez anos.”
“... a gente foi brincar no rio e quando nós chegou lá vimos uma moça bem bonita que tinha os cabelo bem comprido pretinho como a noite ...olhos azul ((risos)) tive vontade de levar ela pra casa (...)chegamos em casa contemos para mãe e ela disse a gente que tinha visto era uma mulher das águas que gosta de homens e queria levar a gente para o fundo do rio...”
“[...] e:: também a da sereia, né? Que a sereia também diz que era uma moça muito bonita, que também CANta muito bonito... e encanta as pessoas com seu canto.”
“[...]tem essa luz que corre aqui na Lagoa e tem a biatatá que é a sereia da Lagoa [...] diz que é ouro que tem [...] mas é uma viga que gira dum lado pra outro.”
Boto rosa

“[...] fala-se do boto verme/boto rosa, né?... Que era um rapaz muito bonito, que encantava as moças... e depois::... elas... ( )/de encantadas com eles, elas... terminavam até engravidando, né?”
“... que tinha uma moça que ficou prenha de repente... Ninguém sabia de quem era... labutaram... labutaram até que descobriram que era do boto cor de rosa... dizia que era um homem BONITO... bem afeiçoado...”
“... aí de vez em época de São João depois dos festejos aparecia alguém de barriga...”
“... morava num rio... o boto mora num rio... e a mulher tano sozinha... tem que tá acompanhada/nessas épocas ele aparece... de festejo junino... pela noite e volta pro rio de manhazinha...”
Mãe d’água

"... quando chegou aí a Mãe d'água" saiu de lá e tava catando as fava, aí catou as fava tudo... aí quando chegou ele pegou aquela moça dos CABELÃO...”
“a Mãe D’água é a rainha das águas... ninguém vê ela não... quem dizer que ta vendo Mãe D’água... agora a Mãe D’água é á água... a água mesmo correndo...”
Homens fantasmas
O primeiro é descrito como o “Homem do chapeuzão”, que se caracteriza por aparecer às dez horas da noite, utilizar um chapéu grande, carregar uma vara e retirar os peixes já pescados do barco. Há, também, o “Homem da cabeça de cesto”, relatado pelos falantes como um homem muito feio, tinha a cabeça muito feia, e que não fazia o bem, além disso, ele levava suas vítimas para o poço. Ainda foi encontrado o relato de dois homens que flutuavam sobre uma pedra no meio do rio e outros dois homens vestidos de branco entre os pés de dendê. Além disso, há uma descrição de que pessoas que viviam da pesca, quando morriam afogadas nos rios, tornavam-se uma espécie de guardiões dele, assombrando os vivos que iam pescar. Por último temos o “Dono do rio”: caracteriza-se por fazer um barulho quando o pescador se encontra na água. Isso era para o pescador sair do rio porque ele estava pescando naquele momento.“Eu tirando o peixe e ele jogando pro lado de fora, fui eu tirando peixe e ele jogando pro lado de fora... Eu também num me importei com aquilo. Tornei sair do pesqueiro fui pra outro, tornei vim pro pesqueiro começou a pegar peixe... Eu digo é::: eu vou mimbora... E::: tinha um pau que a gente atravessava (quando chegou no meio assim) eu olhei pra trás tava aquele homem com uma vara que ia como daqui lá assim nas costa....chapéu des/ tamanho assim... Eu fiquei assustano assim e digo é::: você pescou mais peixe do que eu... ai sai... vim embora pra casa... Foi só esse o negócio que eu vi na minha vida, só foi esse.”
“e a gente saia e a nossa mãe sempre falava: cuidado... cuidado... porque tem um homem da cabeça de cesto... que é muito grande... que atraía as pessoas... levava para o poço. Era... muito feio, era uma/ o homem/ a cabeça era muito feia... viu... e::, e::, e, não fazia nada da bem.
“Eu olhei de cá, dois negões fortes... quando eu cheguei mais adiante já estavam os dois de coca acochado na pedra... Aí me deu na cabeça ‘olha o que é’... aí eu baixei dentro d’água... eles estavam realmente na pedra, mas acima do ch/da pedra aí eu falei ‘ai, ai não é nada desse mundo’”
“eu vim pela beira do rio quando cheguei ali joguei a tarrafa e os próprios acaris desembaraçam a tarrafa ai quando eu olhei pra cima dois homens de branco um de um lado outro de outro entre os pés de dendê pés de dendê velho alto... continuei... tirei meus acari tudo cheguei do lado de cima a tarrafa torceu que eu olhei eu vou ter que voltar.”
“...Tem um pessoal que disse que vai pro rio pescar... dizeno que ota pessoas que tava pescano junto dele e era o cara morto... Jogano tarrafa atrás dele... e quando ia olha e num via nada...”
“Um fulano jogano tarrafa atrás de mim sem eu saber quem era... Só via a tarrafa fazendo TCHA:::R... Eu na frente pescano e ele tava atrás, mas eu num sabia quem era, porque eu num via só via a zoada. Bom... quando eu saia de den/ d’água... parava... Assim, quando eu tava den/ do rio começava. Mas acho que era o dono do rio, acho que ele também tava pescano também.”
O Biatatá

É uma espécie de luz da cor de ouro que atravessa os rios de uma margem a outra. Alguns dizem que é provocada pela sereia da lagoa, outros dizem que são vigas que passam de um lado para o outro.
“O negócio da Biatatá [...] agora eu não sei se é ouro ou o que é né... eu sei que atravessava dessas terras que você ta vendo aqui pro bar de tuba/ Sambaituba[...] uma ia pra lá e outra vinha pra cá... então passava uma pela a outra assim ó[...] cruzando”.
"na praia [...] biatatá diz que é uma visão dessas [...] dessas que vocês falam [...] a biatatá diz que é um fogo[...] eles vê [...] sai aquele fogo [...] sapecava até gente"
Martim pescador

Os entrevistados relatam o Martín como dois meninos que aparecem pulando ao meio-dia.
“Por sinal, o Martim pescador eu também, eu acho que já vi... porque eu tava pescando um dia meio-dia. Aí eu vi dois menino. Esses dois meninos tava todos dois de azul... Ai::: quando eu fui correndo que eu... que eu panhei o anzol, que eu corri, os menino sumiu... aí eu (conversando) com o povo... aí me disseram que era o Martim, agora se é eu num sei se era (...) só fazia ficar pulano na beira da água.”
Bicho brilhante

Fala-se de um ser brilhante que vive sobre uma pedra e tem a aparência de um rato; não há ninguém que possa capturá-lo.
“[...] tem uma coisa sentada em cima da pedra, só que brilha muito... [...] só vi aquela coisa brilhando, mas ninguém consegue pegar... e o pessoal, UNS diz que é:: o::uro, outros diz... que não é ouro, é:::... é um bichinho parecendo um rati::nho.”
Navio fantasma
Diz-se de um navio que surgia no horizonte e aparecia em diversos lugares ao mesmo tempo.
“[...] viu aquele navio boni::to... o navio veio em cima, o navio veio em cima, (e veio navio e veio o navio) alguns minutos depois, o navio já apontava LÁ sobre o norte afora e vinha certinho aqui com a gente, não desviou o caminho e ninguém viu esse navio passar, quando viu ele já tava lá na frente... e isso alguém viu também.”
A tábua preta
Há, por parte dos falantes, o relato de uma tábua assombrada que navega rios e lagos à noite assustando pescadores.
“... Quando escureceu deu umas sete horas... ai vinha uma tauba grande... pela beirada do rio... ai minha tia falou: ‘Vamo redá a tabua’... quando nós suspendeu... a tauba num tava... ‘È assombração... assombração’... os cabelo arrepiou...”
Chave misteriosa

Existe uma chave que vive pendurada no alto de uma árvore. Contam ainda os falantes que no balançar dessa chave, se um dia ela cair na água, a lagoa irá desencantar.
“[...] ti::nha, diz que tinha uma chave, que essa chave também vivia só balançando, o pessoal disse quando ele caí:::sse, que a lagoa ia desencantar, agora até ho::je ninguém... ver essa chave cair, mas desde “d’eu” PE-quena que tem uma chave lá... impendurada.”
O “Cabeção”
O Cabeção é uma cabeça que aparece por volta do meio-dia com o cabelo flutuando no rio. Caracteriza-se por ser uma cabeça grande de mulher e quando se consegue visualizá-la, ela volta a mergulhar.
“Nunca vi nada, só vi uma cabeça... um cabeção (...) era de longe mas eu acho que era de mulher... o cabelo ficava nadano por cima d’água eu vi!”
A escadaria debaixo d’água
No meio da Lagoa Encantada existe uma pedra, e embaixo dessa pedra tem uma escadaria que dá para uma cavidade, uma espécie de gruta, onde seria a moradia dos negos d’água.
“Muitas vezes aqui numa pedra que tem o nome Pedra da Lagoa [...] onde tem uma escada e embaixo tem um salão que eles [os negos d’água ]mora debaixo [...]”
Vitória-régia

O falante expõe que após a morte de uma jovem, houve o surgimento da Vitória-régia, uma flor gigante que exala um cheiro peculiar de rosa. Durante o dia ela possui a cor rosada e a noite se torna branca. Em dia de lua, quando recebe o reflexo, exala seu forte cheiro que penetra a mata.
“... exalava um cheiro forte de perfume de flor... é:::... a vitória-régia... né... soltava um cheiro forte mesmo... uma flor que na noite fica branca e de dia mei rosada...”
“dizia o povo... que... que era um/ que foi uma jovem que morreu no rio e:::... e:::... com tempo se transformo em flor... a vitoria-regi.. gigante.. era enorme... dia de lua... a lua tem que tá refletida na água...”
Peixe que fala
Os falantes relatam sobre um peixe de cor negra que durante a pescaria aparecia para os pescadores, depois sumia e conversava com eles, assustando-os.
“um peixinho que parece agente um... pretinho que as vez aparece prus pescador... depois vurta denovo (...) aí ele tava pescano qui’a’pouquinho disse... “é menino... vumbora?”... – pergunta ao vei Dite se num teve uma voz que disse – ... “não... por que?”... ele disse “não até uma hora dessa ainda não veio nenhum peixe... a voz disse “pra quê?... pra quê o peixe?... pra que?”... aí ele... discabriaram cairu fora e vieram embora...”
Cobra d’água
É caracterizada pelos falantes como uma cobra enorme que ao sair da água se transforma em forma humana, precisamente do sexo masculino. Ela é flamejante e tem duas bolas luminosas no lugar dos olhos.
“... viu uma cobra gigante saindo de dentro do rio e virando um homem que se embrenhou por dentro das mata...”.
“... na fazenda... tava passando a cavalo uma certa vez em frente ao rio... lá pelas oito... nove horas da noite quando avistou um bicho que parecia uma cobra de fogo... grande com duas bola luminosa que parecia dois olhos florescente... saindo da água arribando e caindo...diziam que era a cobra d’água...pra amedrontar as pessoas que passavam.”
A cobra Surucucu
A cobra Sucururu, segundo os relatos, se esconde dentro do rio à espreita de suas vítimas. Diz que alcança a presa, sendo homem ou animal, e leva para o fundo das águas.
“A cobra é uma cobra terrível... ela fica dentro do poço e pegando o que ela encontrar na frente... é gente é tudo... pega pra ela lá... Sucururu... e a história do rio Itacupuru que eu sei é somente essa...”

